quinta-feira, 20 de junho de 2013

Morte do Leiteiro

Olá galerinha!
Nessa semana, de 12 à 14 de junho de 2013, aconteceu na Unimontes, Universidade Estadual de Montes Claros, o Seminário Internacional de Literatura, como eixo principal Literatura, Vazio e Danação. Com minicursos, debates, cinema comentado, sessões de comunicação com acadêmicos dos cursos de Letras Português, Inglês e Espanhol e mestrandos da área de Estudos Literários, e ainda lançamento de livros de docentes da Universidade. O objetivo do evento foi divulgar os estudos dos acadêmicos graduandos e pós-graduandos e aproximar professores, alunos, escritores e pesquisadores na disseminação das pesquisas literárias. O seminário contou com as presenças ilustres dos escritores Guiomar de Grammont e Fernando Bonassi. Para ilustrar o quão grandioso foi esse evento, uma amostra da sessão de comunicação:
“O LEITE E A MORTE: UMA LEITURA DO POEMA “MORTE DO LEITEIRO”, DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE”, tema discorrido pela mestranda em estudos Literários Brasileiros da Unimontes, Valéria Daiane Soares Rodrigues. Neste estudo a mestranda tem por objetivo analisar os ideais de Drummond a respeito das inquietações da sociedade moderna. Examinando “Morte do Leiteiro” podemos refletir sobre a crítica social que Drummond estabelece, denunciando o descaso do trabalho no cenário capitalista, no qual o ser humano é desvalorizado. Outro aspecto de grande relevância no poema, exposto pela mestranda, retrata a figura do leite, branco, representando a vida, uma fonte de força. No entanto, este leite alvo confronta-se com o vermelho do sangue que configura a morte, estabelecendo assim, uma nova cor, aurora, que tem por objetivo propagar um anseio, um sentimento de esperança.

Morte do Leiteiro
Carlos Drummond de Andrade

Há pouco leite no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há muita sede no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há no país uma legenda,
que ladrão se mata com tiro.
Então o moço que é leiteiro
de madrugada com sua lata
sai correndo e distribuindo
leite bom para gente ruim.
Sua lata, suas garrafas
e seus sapatos de borracha
vão dizendo aos homens no sono
que alguém acordou cedinho
e veio do último subúrbio
trazer o leite mais frio
e mais alvo da melhor vaca
para todos criarem força
na luta brava da cidade.
Na mão a garrafa branca
não tem tempo de dizer
as coisas que lhe atribuo
nem o moço leiteiro ignoro.
morador na Rua Namur,
empregado no entreposto
Com 21 anos de idade,
sabe lá o que seja impulso
de humana compreensão.
E já que tem pressa, o corpo
vai deixando à beira das casas
uma pequena mercadoria.
E como a porta dos fundos
também escondesse gente
que aspira ao pouco de leite
disponível em nosso tempo,
avancemos por esse beco,
peguemos o corredor,
depositemos o litro…
Sem fazer barulho, é claro,
que barulho nada resolve.
Meu leiteiro tão sutil
de passo maneiro e leve,
antes desliza que marcha.
É certo que algum rumor
sempre se faz: passo errado,
vaso de flor no caminho,
cão latindo por princípio,
ou um gato quizilento.
E há sempre um senhor que acorda,
resmunga e torna a dormir.
Mas este entrou em pânico
(ladrões infestam o bairro),
não quis saber de mais nada.
O revólver da gaveta
saltou para sua mão.
Ladrão? se pega com tiro.
Os tiros na madrugada
liquidaram meu leiteiro.
Se era noivo, se era virgem,
se era alegre, se era bom,
não sei,
é tarde para saber.
Mas o homem perdeu o sono
de todo, e foge pra rua.
Meu Deus, matei um inocente.
Bala que mata gatuno
também serve pra furtar
a vida de nosso irmão.
Quem quiser que chame médico,
polícia não bota a mão
neste filho de meu pai.
Está salva a propriedade.
A noite geral prossegue,
a manhã custa a chegar,
mas o leiteiro
estatelado, ao relento,
perdeu a pressa que tinha.
Da garrafa estilhaçada.
no ladrilho já sereno
escorre uma coisa espessa
que é leite, sangue… não sei
Por entre objetos confusos,
mal redimidos da noite,
duas cores se procuram,
suavemente se tocam,
amorosamente se enlaçam,
formando um terceiro tom
a que chamamos aurora.


Língua Portuguesa e Didática: Coleção como bem ensinar

Olá Pessoal!
Esta resenha é do livro Língua Portuguesa e Didática: Coleção como bem ensinar. Estou colocando-a no blog para que possa ser divulgada a coletânea e quão é importante as temáticas presentes nesta.
Aproveitem a leitura!


Língua Portuguesa e Didática: Coleção como bem ensinar

Língua Portuguesa e Didática: Coleção como bem ensinar. Petrópolis, RJ: Vozes, 2010. Vários Autores.

A “Coleção com bem ensinar” é a organização de temas relacionados ao ensino-aprendizagem da disciplina Língua Portuguesa. A coletânea propõe a discussão de como deve ser empregada os conceitos da disciplina em questão, buscando levar ao professor Ensino Fundamental e Médio a prática de “como fazer”. Como salienta o texto: “Caracterizam em apresentar temas para reflexão sobre sua disciplina e proposições metodológicas de atividades fundamentadas na prática relativas ao desenvolvimento do processo de ensino e aprendizagem.” (p. 9).
A compilação de textos subdivide-se em trinta e dois títulos incluindo apresentação dos textos e a conclusão. O texto se apresenta com uma comparação de grande relevância entre o médico e o professor, em que se assimilam devido à importância de suas profissões e o quanto estas se diferem desde seus vestibulares até a sua formação, incluindo estágios e práticas profissionais. Para tanto, analisando esse paradoxo, surgi a motivação para a reunião desses textos.
Para se pensar o ensino de Língua Portuguesa, a Coleção discorre sobre uma crônica do professor Alexandre. Com esse conto podemos inferir a respeito do papel do professor de Português na sociedade, que nada mais é do que ensinar palavras e libertar pensamentos.
            A muito têm se falado sobre as dificuldades de se ensinar a disciplina nas escolas, principalmente as de origem públicas, das maneiras tradicionais do ensino de língua. Nessa leitura, os autores sugerem aspectos  para que possamos superar tais dificuladades, pontos retirados da coletânea (p.21):
·         Considerar a realidade e o interesse do aluno, cuidando de saber o que este conhece quando chega à escola.
·         Acabar com a imposição de textos onde o aluno não percebe significação.
·         Diminuir a valorização da gramática normativa e a insistência do uso de regras.
·         Acabar com a prática de exercícios repetitivos e mecânicos sobre frases soltas.
·         Esquecer a imposição de uma teoria gramatical inconsistente.
Outro aspecto que merece destaque remete-se ao por que de ensinar Língua Portuguesa. Tal pergunta pode ser muito rápida respondida,  pois esta é a “compreensão e escuta, é fala e interlocução e escrita, é pensamento, e portanto, é vida.”(p. 37). Por esses motivos, é cabível a quão grande apresenta a dificuldade de ensinar a língua materna, visto que o aluno chega à sala de aula com essa bagagem, já sabendo muito bem se comunicar, se expressar, em sua grande maioria. Para solucionar o problema educacional, este dever encarado como um desafio, uma ideia, uma provocação ou excitação.
A Coleção como bem ensinar, além de proporcionar discussões a cerca do ensino Língua Portuguesa, sugere algumas atividades para serem realizadas como a Oficina para a capacidade de escrever corretamente, que proporciona ao professor subsídios para que possa conhecer melhor sua turma e suas dificuldades ortográficas na criação de textos orais e escritos.
Para concluir essa coleção, os autores expõem como se estabelece um professor imprescindível. O professor torna possível a existência da escola, sem ele não existe excelência e aprendizagem significativas. O professor não apenas ensina gramática, redação e/ou literatura, mas sim educa para vida, ensina valores. Para compor essa personalidade de professor ideal, a coletânea explicita dez requisitos essenciais: humanidade; prudência; senso de justiça; temperança; espiritualidade; otimismo; benevolência; preparação cultural; preparação psicológica; e habilidade didática. Não é fácil ser um professor eficiente, mas esse papel é gratificante pela certeza de que “planta-se pensamentos, se constrói o futuro, se abrem fendas para luz da mais bela esperança de um amanhã melhor.” (p. 160).
Desse modo, com tudo que já foi discutido nessa coletânea, concluímos a grande importância que tem a Coleção de como bem ensinar. Esta nos leva a refletir sobre nossa formação, sobre as futuras formações acadêmicas. E ainda, sobre nosso papel de professor, de como abordaremos os conteúdos da disciplina de Língua Portuguesa. Esse texto não esgota o debate sobre o assunto e nem pode esgotar, pois esse tema é de difícil solução devido a diversidade presente nas salas de aula.

Miriane Prates

terça-feira, 18 de junho de 2013

Realismo e Naturalismo




          A partir da segunda metade do século 20, as concepções estéticas que nortearam o ideário romântico começaram a perder espaço. Uma nova tendência, baseada na trama psicológica e em personagens inspirados na realidade, toma conta da literatura ocidental. Estava inaugurado o Realismo-Naturalismo.
No Brasil, essa passagem ocorre em 1881, com a publicação de Memória Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis (1839-1908), e de O Mulato, de Aluísio Azevedo (1857-1913). Enquanto o livro de Machado apresenta acentuado viés realista, o de Aluísio é claramente naturalista.

Realismo     
           O Realismo brasileiro é completamente diferente do europeu. A obra de seu principal autor, Machado de Assis, escapa de qualquer tentativa de classificação esquemática.
Na fase madura, Machado produz uma literatura essencialmente problematizadora. Com minuciosa investigação psicológica, ele indaga a existência humana. Ele ainda substitui o determinismo biológico por acentuado pessimismo existencialista e discute temas como a relatividade da loucura e a exploração do homem pelo próprio homem.

          A intertextualidade e a metalinguagem marcam o estilo de Machado. O uso da linguagem poética, do jogo proposital de ambigüidades, da recuperação de lugares comuns e do microrrealismo psicológico também são características fundamentais da obra machadiana. Dom Casmurro, Esaú e Jacó e Memorial de Aires são alguns romances do autor.

Naturalismo         

          O principal autor naturalista no Brasil é Aluísio Azevedo. O determinismo social predomina em sua obra, construída através de observação rigorosa do mundo físico e da zoomorfização das personagens. Aluísio é autor de O mulato, Casa de pensão e O cortiço, obras com acentuado caráter investigativo e cuidadosa análise de comportamentos sociais.

Com o que ficar atento?         

          A riqueza literária do Realismo-Naturalismo no Brasil não se restringe à prosa de ficção. A dramaturgia também evolui e consolida a comédia de costumes como um gênero maior – na obra de França Júnior e Artur Azevedo, por exemplo.

          Vale lembrar que o Realismo-Naturalismo brasileiro oferece amplo painel de uma época em que o país era monárquico, escravocrata, patriarcalista e passava por profundas mudanças socioeconômicas e culturais.

Texto completo em: http://guiadoestudante.abril.com.br. Publicação: 23/09/2010 -18h12

Romantismo no Brasil

 

O Romantismo (com R maiúsculo) é a escola literária que prevaleceu no Brasil durante boa parte do século XIX. Teve seu início com a publicação de Suspiros poéticos e saudades de Gonçalves de Magalhães em 1836, que marcou a nossa primeira geração romântica, também conhecida como geração indianista, nacionalista ou ufanista.

Baseado nos moldes europeus, que exaltavam os feitos de cavalaria e eram escritos para a classe burguesa emergente, o Romantismo brasileiro pelo motivo de não termos tido a era medieval e nem os cavaleiros e guerreiros, exaltava o índio e a nossa natureza. O poeta Gonçalves Dias eternizou-se na canção do exílio na qual o eu-lírico, longe do Brasil, narrava as nossas belezas com saudade.

As principais propostas do movimento eram o rompimento com os moldes clássicos, a valorização da subjetividade, o não culto à forma, a exaltação da natureza e dos heróis nacionais (no nosso caso o índio), e a exacerbação dos sentimentos tais como amor, saudade, desejo de fuga e morte. O melancolismo romântico ficou evidente sobretudo na segunda geração, também conhecida como Geração ultra-romântica, Byronismo, mal do século, e satanismo.

Íntima e diretamente atrelada à monarquia, teve seu impulso devido à chegada da família real portuguesa ao Brasil em 1808 que trouxe consigo além do "desenvolvimento" para a nação, a cultura européia. Além disso era comum na época que os intelectuais e os jovens estudantes morassem um tempo na Europa e lá mantivessem contato com os movimentos artísticos em voga, o que justifica o relativo atraso de tais propostas começarem tardiamente no Brasil.

Em se tratando da Segunda Geração Romantica, tivemos como maior representante o poeta Álvares de Azevedo que escrevia poesias e prosas tanto de valor idealizável quanto melancólico. A Lira dos vinte anos, Macário e Noite na Taverna são os exemplos do grande devaneio romântico, causando inclusive estranheza aos leitores acostumados às literaturas que exaltavam a vida e o belo. No último livro, por exemplo, encontramos explícitos casos de necrofilia, orgias e horror, fortemente influenciados pelos escritos do poeta inglês Lord Byron.

É válido ressaltar que mesmo com as propostas definidas para o Romantismo, nossos poetas não conseguiram se desvencilhar completamente das escolas anteriores e nem da influência européia, por isso, mesmo pregando o valor aos versos brancos (sem rima), encontramos sonetos e redondilhas o que denotava que nossos poetas ainda se preocupavam com a forma, o que não era característica própria do movimento.

A terceira e última geração, também chamada Condoreirismo esteve atrelada ao enganjamento social abolicionista, no qual destacou-se Castro Alves narrando o sofrimento dos escravos em Navio Negreiro e Espumas Flutuantes. A geração teve o marco final com a publicação de Memórias póstumas de Brás Cubas, em 1888, do escritor Machado de Assis. O livro foi considerado o divisor de águas entre o Romantismo e o Realismo/Naturalismo. Machado teve em seus primeiros romances a fase românticas com as publicações de Helena A mão e a luva, dentre outros, mas com Brás Cubas e o realismo é que atingiu a sua fase de maturidade.

Texto de: Carlos Henrique Teixeira, publicação completa no blog "Letras na Taverna".

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Uma análise simbolista do filme "Cisne Negro"




O filme “Cisne Negro”, dirigido por Darren Aronofsky, relata a história de Nina, uma bailarina de uma companhia de balé. Sua vida gira em torno da dança, mora com a mãe, bailarina aposentada que incentiva a carreira da filha. O diretor artístico da companhia, Thomas, substituirá a bailarina principal, Beth, na apresentação de abertura da temporada “O Lago dos Cisnes” e Nina é a escolhida.
O espetáculo “O Lago dos Cisnes” requer uma bailarina capaz de interpretar tanto o “cisne branco” com inocência e graça, quanto o “cisne negro”, que representa malícia e sensualidade. Lily, uma também bailarina, se encaixa perfeitamente no papel do “cisne negro”, e Nina é a própria personificação do “cisne branco”. Ambas desenvolvem uma amizade conflituosa, repleta de rivalidade. A partir daí, Nina entra em contato com seu lado mais sombrio, uma personalidade “negra” prejudicando seu equilíbrio psicológico em sua busca pelo seu lado obscuro. De tal maneira, ocasiona num conflito interior, numa conturbação mental. Nessa obsessão em criar um “cisne negro”, a personagem em questão, destrói sua sanidade.
Analisando o filme a partir dos preceitos do Simbolismo, movimento que: não acreditava na possibilidade de a Arte e a Literatura fazer um retrato total da realidade. Duvidava ainda das explicações “positivistas” da ciência, que julgava poder explicar todos os fenômenos que envolvem o homem e conduzi-lo a um caminho de progresso e fatura material. De tal maneira, os simbolistas representam um grupo social que ficou à margem do cientificismo. Essa situação antimaterialista situa-se num contexto mais amplo vivido pela Europa no final do século XIX, o da forte crise espiritual a que se tem chamado de decadentismo do final do século.
Nesse viés, podemos ressaltar no filme já citado características marcantes do Simbolismo, tais como: o desejo de transcendência do mundo real, uma espécie de viajem interior apresentado nas cenas ilusórias da personagem Nina, como por exemplo, na encenação da morte do “cisne branco” / personagem que deixa a incerteza de um suicídio ou morte simbólica levando-a ao ápice de sua performance. Outra abordagem importante remete-se ao interesse pelas zonas profundas da mente (inconsciente e subconsciente) e pela loucura, observável ao passo que Nina busca o “cisne negro” dentro de si, alucina todos os tipos de mutações em seu corpo que representa a gradual saída do “cisne negro”. Outro ponto é a atração pela morte e elementos decadentes da condição humana explorando temas macabros e satânicos, ambientes noturnos e misteriosos, notável nas cenas escuras, perturbadoras do longa-metragem. É interessante analisar o controle mental ou “pressão da sociedade”, que alude ao comportamento das personagens Thomas e a mãe de Nina. Atentamos ainda, ao fato que no Simbolismo nada é imposto ou definido e sim sugerido, corroborado na fala do diretor artístico: sugerindo a bailarina suas posturas para a apresentação.
 E por fim, mas não menos importante, levaremos em consideração a representação dos símbolos no “Cisne Negro”. Um desses símbolos remete-se ao uso dos espelhos e reflexos em inúmeras cenas, um lembrete constante da percepção alterada da realidade de Nina. Esses espelhos são enganosos e seus reflexos parecem ter uma "vida própria". A decoração do quarto infantilizado da personagem, também torna-se significativo, pois demonstra a manipulação da mãe, “sociedade” conforme atributos do Simbolismo. Mais uma pertinência a ser abordada faz referência à “força” do “cisne negro”, simbolicamente representada por asas negras em diferentes fases do filme, como na estátua, nas costas de Lily, no palco quando Nina finalmente atinge a perfeição. Perfeição essa que se transforma-se em maldição e destruição.
Miriane Prates