Olá galerinha!
Nessa semana, de 12 à 14 de junho de 2013, aconteceu na Unimontes, Universidade Estadual de Montes Claros, o Seminário Internacional de Literatura, como eixo principal Literatura, Vazio e Danação. Com minicursos, debates, cinema comentado, sessões de comunicação com acadêmicos dos cursos de Letras Português, Inglês e Espanhol e mestrandos da área de Estudos Literários, e ainda lançamento de livros de docentes da Universidade. O objetivo do evento foi divulgar os estudos dos acadêmicos graduandos e pós-graduandos e aproximar professores, alunos, escritores e pesquisadores na disseminação das pesquisas literárias. O seminário contou com as presenças ilustres dos escritores Guiomar de Grammont e Fernando Bonassi. Para ilustrar o quão grandioso foi esse evento, uma amostra da sessão de comunicação:
“O LEITE E A MORTE: UMA LEITURA DO POEMA “MORTE DO LEITEIRO”, DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE”, tema discorrido pela mestranda em estudos Literários Brasileiros da Unimontes, Valéria Daiane Soares Rodrigues. Neste estudo a mestranda tem por objetivo analisar os ideais de Drummond a respeito das inquietações da sociedade moderna. Examinando “Morte do Leiteiro” podemos refletir sobre a crítica social que Drummond estabelece, denunciando o descaso do trabalho no cenário capitalista, no qual o ser humano é desvalorizado. Outro aspecto de grande relevância no poema, exposto pela mestranda, retrata a figura do leite, branco, representando a vida, uma fonte de força. No entanto, este leite alvo confronta-se com o vermelho do sangue que configura a morte, estabelecendo assim, uma nova cor, aurora, que tem por objetivo propagar um anseio, um sentimento de esperança.
Morte do Leiteiro
Carlos Drummond de Andrade
Há pouco leite no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há muita sede no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há no país uma legenda,
que ladrão se mata com tiro.
Então o moço que é leiteiro
de madrugada com sua lata
sai correndo e distribuindo
leite bom para gente ruim.
Sua lata, suas garrafas
e seus sapatos de borracha
vão dizendo aos homens no sono
que alguém acordou cedinho
e veio do último subúrbio
trazer o leite mais frio
e mais alvo da melhor vaca
para todos criarem força
na luta brava da cidade.
Na mão a garrafa branca
não tem tempo de dizer
as coisas que lhe atribuo
nem o moço leiteiro ignoro.
morador na Rua Namur,
empregado no entreposto
Com 21 anos de idade,
sabe lá o que seja impulso
de humana compreensão.
E já que tem pressa, o corpo
vai deixando à beira das casas
uma pequena mercadoria.
E como a porta dos fundos
também escondesse gente
que aspira ao pouco de leite
disponível em nosso tempo,
avancemos por esse beco,
peguemos o corredor,
depositemos o litro…
Sem fazer barulho, é claro,
que barulho nada resolve.
Meu leiteiro tão sutil
de passo maneiro e leve,
antes desliza que marcha.
É certo que algum rumor
sempre se faz: passo errado,
vaso de flor no caminho,
cão latindo por princípio,
ou um gato quizilento.
E há sempre um senhor que acorda,
resmunga e torna a dormir.
Mas este entrou em pânico
(ladrões infestam o bairro),
não quis saber de mais nada.
O revólver da gaveta
saltou para sua mão.
Ladrão? se pega com tiro.
Os tiros na madrugada
liquidaram meu leiteiro.
Se era noivo, se era virgem,
se era alegre, se era bom,
não sei,
é tarde para saber.
Mas o homem perdeu o sono
de todo, e foge pra rua.
Meu Deus, matei um inocente.
Bala que mata gatuno
também serve pra furtar
a vida de nosso irmão.
Quem quiser que chame médico,
polícia não bota a mão
neste filho de meu pai.
Está salva a propriedade.
A noite geral prossegue,
a manhã custa a chegar,
mas o leiteiro
estatelado, ao relento,
perdeu a pressa que tinha.
Da garrafa estilhaçada.
no ladrilho já sereno
escorre uma coisa espessa
que é leite, sangue… não sei
Por entre objetos confusos,
mal redimidos da noite,
duas cores se procuram,
suavemente se tocam,
amorosamente se enlaçam,
formando um terceiro tom
a que chamamos aurora.
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